....De fato estou doente. Mas não é doença grave. Sofro de beleza. Não é por acidente que beleza rima com tristeza. Albert Camus dizia que a beleza é insuportável. Rafael Consinos-Asséns, poeta judeu-espanhol, pedia a Deus que não houvesse tanta beleza. Vinicius confessava que a beleza lhe dava vontade de chorar. A Adélia Prado confirma, dizendo que o que é bonito enche os olhos d'água. E a Cecília Meireles, aquela que " ás areias e gelos quis ensinar a primavera" se descrevia como " essa que sofreu de beleza." É isso: eu também sofro de beleza.
...Sem a minha tristeza eu ficaria aleijado - acho que até pararia de escrever. Porque a minha escritura é um contraponto musical á minha tristeza. ...Mas não é tristeza de tristeza, é tristeza de que haja tanta beleza, beleza que é demais pra mim... ...Minha tristeza é mansa e boa. Não se preocupem comigo. Diz a Adélia que " pode com a tristeza é quem não perdeu a alegria". Enquanto eu ouvir Bach estarei salvo.
Lindo! essa é uma das minhas expressões que se expressam nas lindas e sábias palavras do Rubem! eu definitivamente o amo.
"Pensei que seria bom se também eu fosse como as plantas, que minhas ações fossem um puro transbordar de vitalidade, uma pura explosão de uma beleza que cresceu por dentro e não mais pode ser guardada. Sem razoes, por puro prazer.
Mas aí olho para a mesa e um livro de capa verde me lembra que não vivo no Paraíso, que não tenho o direito de viver pelo prazer. Há deveres que me esperam. O que todos pedem de mim não é que eu floresça como os ipês, mas que eu cumpra os meus deveres – muito embora eles me levem para bem longe da minha felicidade. Daí a sabedoria do verso de Fernando Pessoa, aquele em que diz que somos o intervalo entre o nosso desejo e aquilo que o desejo dos outros fez de nós. No meu livro de capa verde estão escritos os desejos dos outros. Ele se chama agenda. Os meus desejos, não é preciso que ninguém me lembre deles. Não precisam ser escritos. Sei-os (isto mesmo, seios!) de cor. De cor que dizer no coração. Aquilo que está escrito no coração não necessita de agenda porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno. Se preciso de agenda é porque não está no coração."
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