Releituras

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domingo, 4 de janeiro de 2015

por Meryl Streep

"Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo,
críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo seletivo e altivez acadêmica.
Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações.
Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível.
Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não
sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais.
E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."

Ycatu


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Poema de Natal

Para celebrar o seu centenário!

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sozinho

“Eu sozinho sou mais forte, minha alma mais atrevida. Não fujo nunca da vida, nem tenho medo da morte.
Eu sozinho de verdade, encontro em mim minha essência, não faço caso de ausência e nem me incomoda a saudade.
Eu sozinho em estado bruto, sou força que principia, sou gerador de energia de mim mesmo absoluto.
Eu sozinho sou imenso, não meço nunca o meu passo, não penso nunca o que faço e faço tudo o que penso.
Eu sozinho sou a esfinge pousada no meio do deserto que finge que sabe o que é certo, e sabe que é certo que finge.
Eu sozinho sou sereno e diante da imensidão de toda essa solidão o mundo fica pequeno.
Eu sozinho meu caminho: sou eu, sou todos, sou tudo. E isso sem ter, contudo, jamais ficado sozinho.”
Paulo César Pinheiro

Escolha

“Porque a tudo dou fim depois de dura conquista, é que se a dor me contrista não tenho pena de mim.
Não é que eu seja ruim e nem sequer masoquista, mas é meu ponto de vista, mereço sofrer assim.
Mas se pra que o verso exista, tiver que a dor dizer sim, então serei fatalista: A dor que acenda o estopim e o homem mate-me a fim de que não morra o artista.”

Paulo César Pinheiro

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Família Vende Tudo


Excelente!
Por Sérgio Vaz (poeta da periferia)

Vendo barraco de madeira
com vista para o córrego
com água e esgoto desencanado
dois por quatro, sem tramela
com buraco
para o frio em entrar.

Devido a pressão
vendo jogo de vazias panelas
frigideira sem óleo
vida sem tempero
ronco de barriga
insônia da miséria.

Vendo choro de mãe
com criança no colo
na fila do hospital
dessa vida sem bula
sem cura
sem melhoral.

Vendo abandono de pai:
“Ave-Maria, pai nosso que estai no céu,
como batia, esse filho da mãe!”
Vendo natal sem brinquedo
sem bola nem boneca
uma foto amarelada
do tio Noel
puxando trenó sem cavalo
nas ruas da cidade.

Vendo vaga em escola ruim
de criança que cresce sem creche,
sem merenda, sem leque
raiz dos problemas
de todos meu pobrema.
do destino em xeque.

Vendo sapato furado,
chinelo de dedo e calos nos pés.
Vendo fé cega,
lágrimas enferrujadas
calos nas mãos
de orações não atendidas.

Vendo anjo da guarda
surdo-mudo
sem experiência
contra a pobreza.

Vendo um corpo falido
cheio de rugas
que se abriram como estradas
nessa sina sem rumo, sem saída,
de vida inteira, quebrada...

Vendo rim
fígado, coração
e sonhos dormidos.

Vendo alegria de ano novo
primeiro amor, nunca usado.

Vendo a porra toda.

Vendo desemprego, unha desfeita,
dores nas costas, no peito e dores de amores.

Vendo menina grávida
guarda-roupa sem roupa
vendo menino
no semáforo
equilibrando o limão
da vida amarga.

Vendo bala perdida
que encontra sempre a molecada
nas esquinas escuras
desse destino claro.

Vendo samba de Adoniran
onde a favela fica bonita
com saudosa maloca e tudo,
já tem luz elétrica esse lugar escuro
onde o político se ilumina.

Vendo futuro
que não vale nada
por isso leva
o passado de presente.

Vendo racismo
essa escola de preto no branco
que desfila na avenida Brasil
o ano inteiro depois do carnaval.

Tinha até sorriso e felicidade pra vender
mas como ninguém nunca usou…
se perdeu nos becos da favela.

Vendo alegria,
mas tem que levar a tristeza também.
Família vende tudo,
antes que o incêndio
acabe com ela.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Rubem Alves

O que achamos que é pecado, Rubem Alves chama de virtude. Também queria eu não fazer nada com a consciência limpa! 
"Desejos são perturbações na tranquilidade da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por isso desejo...Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso pode se entregar ao calor do momento presente sem desejar nada. E esse "entregar-se ao momento presente sem desejar nada" tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida."


domingo, 25 de dezembro de 2011

Martha Medeiros - livro Doidas e Santas

"O mundo não anda fácil nem digerível.
É homem-bomba explodindo em festas de casamento, é corrupção pra tudo que é lado, é muito desamor travestido de prazer, é uma emergência de ser feliz que impede a construção da felicidade mesma, que é mais vagarosa. Para onde estão indo todos nesta correria? Não sou a única que ainda vive, em certos aspectos, na era da pedra lascada, mas corro igual, porque se parar, me atropelam."

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Adélia Prado

Olha que dica boa que eu recebi! Obrigada!

É incrível ela transformar em beleza a religião que tanto a reprimiu.
Fantástico como sempre tudo está em como enxergamos.

"Há uma grande distinção, aqui é santo aqui é profano.
Aqui sim, aqui não.
Tive uma educação religiosa repressora.
Mas aquele Deus terrível que me proibia tudo, tudo é pecado, é negro, não pode.
Mas através do ato litúrgico, da própria religião que de certa forma me pressionou
Eu descubro a beleza.
Deus é difícil, mas é bonito demais, é bonito é bonito
É a beleza, fui apanhada e salva pela beleza
E pela beleza quando eu descubro primeiro a emoção poética.
E o Erótico nisso?
O erótico é isso!
Mas isso é carnal?
É carnal!
Não tem livro mais carnal do que as "sagradas escrituras", extremamente eróticas.
Porque são vitais! Vida, desejo pela vida!

A missa é extremamente erótica; no sentido primeiro da palavra:
Isso é meu corpo!
Tomai e comei.
Coma o corpo!
Beba o sangue!"

domingo, 2 de janeiro de 2011

Fim


Eu hoje acordei tão só
Mas só do que eu merecia
Eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti

É comprido, mas vale a pena!
Tava olhando meus materiais antigos de escola, e na 5°série apresentei um trabalho sobre essa crônica. Bacana ver que depois de tanto tempo, hoje ainda tem o mesmo sentido.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Aos que têm saudade!!! Martha Medeiros

Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ela tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
Se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.

Martha Medeiros

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ferrato Pessoa

Muito bom!!rs

"Além de ser autor do Rato de Sebo, Custódio é boa praça, ótimo como chargista e escritor, e ainda toca sax-tenor na Banda Smith, seguindo a tradição de seus pares (Verissimo, Aroeira e outros mais)." ARNALDO NOGUEIRA JR.
Fonte:http://www.releituras.com

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

                                E não sou nada!...


Florbela Espanca

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Lua no Cinema

A lua foi ao cinema,
Passava um filme engraçado,
A história de uma estrela
Que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
Uma estrela bem pequena,
Dessas que, quando apagam,
Ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
Ninguém olhava pra ela,
E toda a luz que ela tinha
Cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
Com aquela história de amor,
Que até hoje a lua insiste:
— Amanheça por favor!

Leminski

domingo, 7 de novembro de 2010

Te amoramor!

Durante as duas últimas semanas tenho começado os meus dias cometendo um furto. Não sei como evitar esse pecado e, para dizer a verdade, não quero evitá-lo. A culpa é de uma amoeira que, desobedecendo as ordens do muro que a cerca, lançou seus galhos sobre a calçada. Não satisfeita, encheu-os de gordas amoras pretas, apetitosas, tentadoras, ao alcance de minha mão. Parece que os frutos são, por vocação, convites a furtos: basta mudar a ordem de uma única letra… Penso que o caso da amoreira comprova esta tese linguística: tudo tem a ver com o nome. Pois amora é a palavra que, se repetida muitas vezes, amoramoramoramora, vira amor. Pois não é isso que é o amor? Um desejo de comer, um desejo de ser comido… O muro, tal como o mandamento, diz que é proibido. Mas o amor não se contém e, travestido de amora, salta por cima da proibição.

Rubem Alves

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

Clarice Lispector

sábado, 11 de setembro de 2010

Álvaro de Campos - Acordar

Álvaro de Campos colocou alguns dos meus sentimentos nesse poema.
Selecionei alguns trechos, de que me movem mais, na intregra o poema é um pouco maior.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo...
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
"Dá-me lírios, lírios, e rosas também.
Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores.
Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.
Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves.
E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega."

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Livraria Cultura - Paulo Mendes Campos

E ficamos alí, no Puff, a descobrir uma crônica que falava de forma a nos angustiar, nos silenciar, nos movimentar...fazendo assim, compartilhar uma das mais belas coisas que existe, o amor em forma de poesia...

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Extraído de: O Amor Acaba - Crônicas Líricas e Existenciais
Paulo Mendes Campos

domingo, 13 de junho de 2010

Escrevo o que não Sou

Há uma pergunta que, quando feita a um poeta ou escritor,dói mais que picada de escorpião.A mim, pessoalmente, nunca fizeram.Mas fizeram a amigos meus.Ele é do jeito mesmo como ele escreve?”
É uma pergunta nascida do amor: acharam bonitas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo.
Como disse, nunca me fizeram a pergunta, diretamente.Mas eu respondo.
“Não, eu não sou igual ao que escrevo”.Sou um fingidor.
Quem disse isso, que o poeta é um fingidor, foi Fernando Pessoa:
O poeta é um fingidor.Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.Fingir é palavra feia.Sugere uma mentira, com o intuito de enganar. No mundo de Fernando Pessoa ela tem um outro sentido. Fingimento é aquilo que faz o ator no teatro: para representar ele tem de “fingir” sentimentos que não são dele. E finge tão completamente que sente, realmente, uma dor que não é dele, mas de um personagem fictício, ausente.Assim é o poeta.Como pessoa comum, ele sofre.Essa pessoa sofredora não sabe escrever poemas.Ela só sabe sofrer.Mas nessa pessoa que sofre mora um outro, o poeta, o duplo, heterônimo.Esse poeta olha para si mesmo, sofredor, e “finge”: deixa-se possuir por aquela dor que é dele como se fosse de um outro:
“chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.Sou um fingidor.O que escrevo é melhor que eu.Finjo ser um outro.O texto é mais bonito que o escritor.Fernando Pessoa se espantava com isso.Ele tinha clara consciência de que ele era muito pequeno quando comparado com a sua obra.Num dos seus poemas ele diz o seguinte:
Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?Onde fui buscar isto?De onde me veio isto?Isto é melhor do que eu…Vinha-lhe então a suspeita de que aquilo que ele escrevia não era obra dele, mas de um outro:Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui raçamos?Contaram-me que ele, Fernando Pessoa, certa vez, aceitou encontrar-se com Cecília Meireles, e marcaram lugar, data e hora para o dito encontro.Cecília compareceu e esperou.Pessoa não foi e mandou, no seu lugar, um menino com uma desculpa esfarrapada. Esse incidente sempre me intrigou.Será que Pessoa era um grosseiro indelicado?Depois, lendo o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, encontrei uma curta afirmação que esclareceu tudo:“Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.”Ao marcar o encontro com Cecília, movido pela delicadeza ou entusiasmo, ele se esqueceu disso.Foi só na hora que lembrou.Cecília amava os seus poemas.Na ausência, certamente, fizera aquilo que todos fazem:imaginou que o poeta se parecia com os seus poemas.Agora, em algum hotel de Lisboa, ela se preparava para se encontrar com a beleza dos poemas na sua forma viva, verbo feito carne.A decepção seria muito grande.“Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”
Assim, para poupar Cecília da decepção, ele preferiu não aparecer.Àqueles que fazem essa pergunta a meu respeito, que imaginam que eu possa ser parecido com o que escrevo, aconselho:“Não compareçam ao encontro. Fiquem com o texto.”Não é mentira, não é falsidade:a poesia é sempre assim.A poesia não é uma expressão do ser do poeta.A poesia é uma expressão do não-ser do poeta.O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.Escrevo porque tenho sede e não tenho água.Sou pote.A poesia é água.O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um.O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar.Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede.Poeta é pote.Poesia é água.Pote não se parece com água.Poeta não se parece com poesia.O pote contém a água.No corpo do poeta estão as nascentes da poesia. Escher, o desenhista mágico holandês, tem um desenho chamado Poça de Lama:numa estrada encharcada pela chuva um caminhão deixou as marcas dos seu pneus, onde a água barrenta se empossou. Coisas feia e sujas, as marcas dos pneus de um caminhão, cheias de água barrenta: nenhum turista seria tolo de fotografar uma delas, quando há tantas coisas coloridas para serem fotografadas.Pois Escher desenhou uma delas.E o que ele viu é motivo de espanto:na superfície de lama suja, refletidas, as copas dos pinheiros contra o céu azul.Pensei que a poesia é isso:poça de lama onde se reflete algo que ela mesma não contém.
A copa dos pinheiros contra o céu azul não está dentro da lama, não é parte do ser da lama.Apenas reflexo: mora no seu não-ser.Pensei que assim é o poeta: poça de lama onde o céu se reflete.Nietzsche, escrevendo sobre a poesia de Ésquilo, diz que ela “é apenas uma imagem luminosa de nuvens e céu refletida no lago negro da tristeza”.E Fernando Pessoa, no poema daquele verso que todo mundo canta - Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena , diz o seguinte: Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.É nessa contradição: o céu se fazendo visível, refletido, na poça de lama, no lago negro da tristeza, no perigo e no abismo do mar.Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas.Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados - “Oh! Pedaço arrancado de mim!”
O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está…O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade. Enquanto pensava sobre essa crônica ouvi, por acaso, aquela balada que diz: "like a bridge over troubled waters" “como uma ponte sobre águas revoltas…” Letra e música sempre me comoveram.
Na liturgia do casamento do meu filho Sérgio com a Carla, liturgia que preparei, pedi ao Décio cirurgião pianista que tocasse essa canção: pois isso é o máximo que alguém pode ser para a pessoa amada: ponte sobre águas revoltas. Pensei, então, que eu sou “águas revoltas” (onde eu mesmo quase me afogo). O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio. Assim, considero respondida a pergunta: não sou igual ao que escrevo. Guardem o conselho de Fernando Pessoa. É mais seguro não comparecer ao encontro.

Rubem Alves